Como vimos no artigo anterior, o tratamento do diabetes evoluiu no século XX tudo o que não evoluiu em quase três mil e quinhentos anos de conhecimento da doença. Nessa época, foram descobertos os medicamentos orais, os análogos de insulina, e a terapia de contagem de carboidratos. As principais marcas de bombas de insulina surgiram no mercado.

Puxa, mas parecia que estávamos indo tão bem… E no século XXI? As pesquisas pararam?

Pelo contrário. As pesquisas continuaram ao longo do século XXI, assim como estão a todo vapor, atualmente! Porém, um outro ponto muito importante surgiu no fim do século XX, e continuou como prioridade no século XXI: a educação em diabetes.

A ideia, em si, é muito simples, e tem ramificações muito interessantes. Se o objetivo é a cura do diabetes, precisamos nos certificar de que as pessoas com diabetes tenham condições de aproveitá-la quando ela surgir. E aí, começam as muitas ramificações.

A IDF – Federação Internacional de Diabetes – preconizou alguns objetivos, visando esse alvo final. Aumentar a prioridade para a prevenção do diabetes – no caso do tipo 2 –, fortalecer as lideranças nacionais para aumentar a resposta e controle às complicações do diabetes, reduzir as taxas de mortalidade devido ao diabetes e complicações, fortalecer os sistemas de saúde para permitir o tratamento focado na pessoa com diabetes e oferecer cobertura de saúde a todos, promover condições para pesquisas em diabetes são alguns destes pontos. O objetivo final, quando todos forem cumpridos, será a melhor qualidade de vida possível para quem tem diabetes.

De maneira a diminuir o preconceito por parte de quem não tem diabetes, a IDF, em 2003, recomendou que os termos “diabetes insulino-dependente”, “diabetes juvenil” – ambos para o tipo 1 –, “diabetes não-insulino-dependente” – para o tipo 2 – e “diabético” deixassem de ser utilizados. Muitas pessoas com diabetes acabam não vendo problema em usar os termos, porém, a recomendação persiste.

Eis que, então, surgem os projetos, tanto nacionais, por parte das associações de diabetes de cada país, quanto da própria IDF.

Em 2007, a IDF lançou a campanha “Bring Diabetes to Light”, em tradução livre, “Traga o Diabetes à Luz”, que, no Dia Mundial do Diabetes, ilumina monumentos ao redor do mundo para alertar o mundo sobre a doença. O Cristo Redentor, o Maracanã, a Estátua da Liberdade (EUA) e a Torre Eiffel (França) já foram iluminados durante essa campanha.

Cristo redentor dia mundial do diabetes
O Cristo Redentor, iluminado durante o Dia Mundial do Diabetes 2013.

No Brasil, a Jovem Líder da IDF Claudia Labate criou o grupo BluePower Diabetes, que trabalha fazendo campanhas e divulgando o diabetes. Ao redor do mundo, também, a Jovem Líder da Alemanha, Katarina Braune, conseguiu organizar recentemente uma campanha em um dos maiores jogos online do mundo, o Blue Buff for Diabetes, no jogo League of Legends.

Falando nos Jovens Líderes, o programa da IDF foi mais uma maneira de trazer um novo gás para a causa do diabetes. Você pode ler mais sobre o programa clicando aqui!

Outro programa da IDF, criado pensando nos objetivos citados lá em cima, foi o “Life for a Child”, ou seja, “A Vida por uma Criança”. É um programa que fornece insulina, seringas e material de monitorização de glicemia, de graça, para crianças em países como Índia, Equador e Congo. Além disso, o programa também provê cuidados médicos e educação em diabetes nesses países.

Os Jovens Líderes da IDF não ficaram para trás, e também estão a todo vapor com projetos de assistência. A Jovem Líder da Inglaterra, Elizabeth Rowley, deu início à campanha “100 campaign”, ou seja, a “Campanha dos 100”. O objetivo é que até 2022, quando comemoraremos os 100 anos da descoberta da insulina, tenhamos 100% das pessoas com diabetes ao redor do mundo com acesso à insulina.

ronaldo wieselberg elizabeth rowley diabetes
Eu (à esquerda) e a Elizabeth, durante o Congresso Mundial de Diabetes, em 2013.

Ufa! Quanta coisa, só para divulgar o diabetes e educar quanto à doença!

Além de toda essa divulgação, as pesquisas científicas estão a todo vapor.

Pesquisas atuais desenvolveram outros tipos de administração de insulina, dentre elas, a insulina inalável, que hoje é comercializada em doses fixas de 4, 8 e 12 unidades.

A tecnologia de monitorização de glicemia também foi alvo das pesquisas. Monitores de glicemia não-invasivos, como o GlucoWatch, surgiram a partir de 2001. Até o Google entrou na briga, recentemente, com pesquisas sobre lentes de contato para monitorar a glicemia. Uma tinta especial para tatuagem, que muda de cor conforme a glicemia, está em fase de testes nos EUA, e acaba sendo uma maneira curiosa de manter o controle glicêmico.

Com a chegada dos smartphones, os aplicativos para o manejodo diabetes surgiram rapidamente. Aplicativos com tabelas nutricionais, para anotar os valores de glicemia, e até o iBGStar, um periférico para iPhone, para medir a glicemia, surgiram. Muitos deles, hoje, têm até conexão com os carros, de maneira que o motorista saiba quanto está sua glicemia durante o trajeto – e possa parar caso perceba uma hipoglicemia chegando.

sensor de hipoglicemia carro diabetes
Hipoglicemia chegando? Hora de parar no acostamento e corrigir a glicemia!

A melhora dos métodos diagnósticos – e também uma atualização dos níveis de glicemia aceitáveis – permitiu que muitos dos casos de diabetes que antes não eram diagnosticados fossem descobertos. Assim, os dados epidemiológicos do diabetes sofreram alterações que deixaram os médicos de cabelos em pé: na África, por exemplo, 76% das mortes relacionadas ao diabetes são de pessoas com menos de 60 anos, e estatísticas mostram que na América do Sul, o número de pessoas com diabetes vai crescer pelo menos 60% até 2035.

Bombas de insulina mais inteligentes, com sincronização com sensores de glicose são cada vez mais comuns no dia a dia – inclusive com algoritmos que protegem de hipoglicemias e evitam hiperglicemias – e oferecem um manejo bastante preciso. Sensores que alertam de subidas e quedas de glicose também são cada dia mais presentes no mercado.

O Brasil também está despontando nas pesquisas científicas. O Dr. Carlos Eduardo Barra Couri é um dos grandes pesquisadores da terapia com células-tronco para o tratamento do diabetes, e já foi premiado internacionalmente por isso! Outras pesquisas, com insulinomas – um tipo de câncer que produz insulina – também se mostram promissoras, mas ainda estão sob pesquisa, inclusive técnicas usando Sitagliptina e Vitamina D, pelo Dr. Marcelo Maia Pinheiro, apresentam chance de remissão do diabetes tipo 1. Como já vimos na parte 4, às vezes demora mais de vinte anos para que tenhamos resultados que não coloquem em risco a saúde do paciente.

E o futuro? Oras, até 2035, a previsão é que 600 milhões de pessoas tenham diabetes ao redor do mundo, e que os gastos em saúde relacionados ao diabetes passem de 627 bilhões de dólares. Os últimos dados do Atlas da IDF mostram que uma pessoa com diabetes morre no mundo a cada seis segundos, seja por falta de recursos, por desconhecer a doença, ou simplesmente por negligência. Diariamente, tentamos fazer desse futuro um futuro um pouquinho mais brilhante.

Este é o nosso futuro. Estamos construindo o futuro do diabetes diariamente, ao cuidar de nós mesmos. Alguns dos maiores cérebros do Brasil e do mundo estão trabalhando em prol do diabetes, e precisamos ter ciência da doença. O Dr. Elliott Joslin já dizia, lá, no começo do século XX: “Educação não é parte do tratamento; educação É o tratamento em si”.

Ao recusarmos os tratamentos – sejam com insulina, metformina ou até as tentativas de reeducação alimentar e exercício físico – é como se virássemos as costas para Hesy-Rá, Galeno, Paracelso, Frederick Banting, Charles Best, Elliott Joslin, e todos que estudaram o diabetes ao longo desses três mil e quinhentos anos.

Nós podemos mudar esse futuro.

E você, como quer contribuir para a história do diabetes?


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